20170531

Cruz Das Almas


A água morna dentro do pote
não pode parar o esfriamento
como não se pode impedir na parede
que algum dia seque o cimento
ao redor da cruz
um século de almas mortas
não pode impedir que a vida acabe
e comece novamente
e acabe novamente
ao amor não se pode impedir que seja infinito
como não se impede que mude sempre de mote

20170112

Poema do Estado Sólido para o Liquido

sumiram com todo o concreto da minha poesia
que de repente virou água
de repente evaporava
de repente chovia

20161222

Instantâneo

luzes derretendo
branca como a espuma do mar
branco como a imensidão de tudo
um sonho
esperança em pó
uma realidade
o nada
sombrio e escuro infinito

20161003

Patativa e o vento

nada de novo pintou na dor
que o quadro cinza tem
só um retrato, surrado
do dia anterior

20160829

Ler

uma cigana leu na minha mão
que as letras analfabetas
no afeganistão
torá, mahabharata, bíblia ou corão
não contam quantas vezes a mão
eu passei na minha pica
nem que os amores passam
mas há sempre um que fica

Maçã do amor

infâncias de puxar carroça
fabricar calçado e telefone
a menor idade da china tem nome
fica proibido o suicídio
não se morre sem motivo
aqui
escravo bom escravo vivo
baixe o hino da internacional
digite até passar mal
o quanto é contra
cada um caga o que come
e a partir de agora
a foto de um escravo pra cada i phone

20160824

Causado

não desejo falar com o próprio
muito menos com quem fale em seu nome
morrer é coisa para dublê
e viver é feminino
não quero ir ao céu
estou liso no momento
o inferno é de graça
não tem cabimento
mas fogo que no ceará eu asso de vez
esta valsa é para você que ri
posso citar schopenhauer
ou falcão
posso dizer que disseram
posso dizer que vi
independente de uma vida
um amor dura três meses
não existe o certo nem o único
já o vi diversas vezes

Baiana

a grama coberta de tudo
degradê do verde ao açaí
cais que puxa o mar para o sertão
porto seguro
só não esqueça baiana
amar a todos
lembrar de mim com tudo

A língua

Palavra acesa
não põe mesa
nem cama no juízo

20160518

T®ês Meninas do Brasil

enquanto mariana vive na lama
a juliana não quer sambar
Ciça arrebenta o decoro
depois da tempestade 

vem a sapucaia

20150728

Quando eu Morrer

a Alvares de Azevedo e sua Lira dos vinte anos

quando eu morrer que não seja de morte séria
que minhas tripas estejam guardadas
que não seja de morte matada
que não seja lucro miséria

20150724

Ato 1

entre balões dourados
se esquiva a pipa
entre babados

do rio só ficaram as pedras
que o sol queimou

atuou o reator
interpretando 
um cogumelo de fumaça

balões
pipas
babados
rio
pedras
estilhaços

20150710

Ave Maria dos Pivetes

se sua senhora ou seu deus
querem matar o pivete
pense-se apertando o gatilho
ou rasgando seu pescoço com um canivete
escrever a palavra matar
não matar
é fácil
o difícil é 
apertar o botão 
e ver o pivete fritar

20141231

Freguesia

quantos erros juntos
me farão virar freguês
pois o mesmo erro
nunca cometo
apenas uma vez

20141128

Des Apontamento

perdão se não percebi as pedras flutuarem ser fora da lei
atmosfera
o papagaio é um condutor de eletricidade
eu deveria esperar pela gravidade
comigo não há pausa
minhas maçãs largadas na sarjeta
mas você não inventou o efeito
apenas inventou a causa

20141030

Bia a limpadora do universo

passava a mão e apanhava todos o caroços de arroz espalhados pelo céu
mas isso não doía nem um pouco
ficava só a farinha azul céuzinho
bia 
podia
fazer quase tudo com as mãos
mas o que ela mais gostava de fazer era limpar o universo
não tinha sujeira
era um limpar de arrumação
para passar o tempo ela pegava na minha mão
e por osmose naquele momento as minhas também podiam fazer de tudo

20141022

Inconformidade com o novo padrão. Desconformidade com o padrão velho

Eu não me represento por escravo médio
menos ainda escravo raso
não almejo ser comandante
menos ainda comandado
me representa um todo
nem acima nem a abaixo
todo 
lado a lado

20141014

Dia dezenove e meio

em horas que acordar é morrer
dias que não dormir é estar morta
sapos em liquidificação de cor torta
bonecos de vento em lojas a perecer
quando bom dia é vá se fuder
melhor os ratos ficarem na toca
melhor o peixe entregar-se a pororoca
e esperar aflita noites de escurecer
hoje amanhã e depois
catêtos não levantam quadrados
nenhum dos gatos é pardo
o tempo está vermelho
e o céu conrinua azul
"a vida as vezes é
uma calcinha enfiada no cú"

20140925

Amor de Dentro

tô fora de religião
seja ou não cult
roma, áfrica, índia ou japão
pouco me importa um pajé
uma entidade ou papa
um monge, santo ou seu pai
tô fora de amém, namastê ou axé

20140908

A vida saudável

leões comedores de plantas
todas as criaturas vivas
foram feitas
alimentadas ou alimentos
seja vivo ou seja morto
a vida o seu sustento

20140906

Não é só Charles

na literatura que embriagês é linda
fingida de real
marginal
escrevo com cabeça tronco e membros
sou uma praga
somente com venenos atirados ao coração pode ser controlada
e ao me encontrar em tais circunstâncias 
ou me abraça 
ou fica calada
e se assim for
ao avistar-me ao longe
mude a calçada

20140903

Hora do almoço

Enquanto meu poema pobre
caminha a pé
eu não fujo
meu disco voador é o almoço

O tempo e o vento

a metáfora é o caminho
comunicação entre
o incerto e o improvável
cigarros cantando para o vento
e o rio salgado de agua doce
dançando para o tempo

20140827

Nem vencido e sem psicologia

não creio em

loteria
esoterismo
psiquiatria

o meu banco está na praça
meu signo nas esquinas
minha loucura a despreocupação

não creio em 
sorte
beleza interior
magia

minha sorte é minha loucura
minha beleza interior é sujo de vômito comer sarapatéu sem poesia
o meu deus nasce toda manhã em alguma parte

eu creio em
azar
câncer
morte

20140813

Meu coração

quando rasgo meu peito
não penso em papel

aviões de papel

coração de músculo e massa cinzenta
“o meu coração que não é de papel”

20140807

Eleição de Patativa

na campanha eleitoral do vento
a plataforma é o espaço
a promessa é o tempo
o carro de som o silêncio

20140718

Asombra

todo coração é uma célula revolucionária
só a paixão gera o caos
e só a paz gera o amor

a manga mata a fome enquanto quem da a sombra é o pé
eu quero a sua mão e você sempre me da o pé
vivo menina de doce sumo
a sombra do seu pé

20140628

Jogo da Velha

me diga uma palavra e serei salvo
me diga uma palavra e serei alvo
tábua
pra você atravessar do rio para a rua
#vem para a rua
parabólico sem sinal
estrada de terra
osso e caldo
não sou um homem
sou a lembrança de você nua
#vem para a rua

20140520

Comer e beber

se nada vem de graça
nem o pão nem a cachaça
avalie a graça de te ter
pra cachaça
imagine te ter então
pro pão
agora volte
na realidade eu só tomo
e como
seu não

20140517

Bahia

dois sois e um radiador furado me fazem pensar na bahia muito mais que os barcos ancorados e as velas que por mais que os ventos soprem parecem jamais serem apagadas 
parecem na verdade serem alimentadas pelos sois
e a dama no tabuleiro de xadrez me faz pensar
o que há de errado com sorvetes 
barracas e o chat do facebook

recarregar

seguir rumo sertão profundo e encontrar a maior beleza que há
não falo aqui nessa radio difusora de cactos e espinhos
falo de olhos esverdeados e quebrados de pileque de quem não se permite a mesmice das ressacas
estas por si já atiram das primeiras as ultimas pedras do mar ao sertão
e se o samba nasceu lá na bahia o que fazem meus olhos vendo ele no sertão

miragem

coisas transnacionais importadas do oriente enfiadas dentro do rabo do pavão misterioso por espadas mouras
vinte e sete anos 
seria melhores se fossem horas 
um dia inteiro calado lhe incubando não seria suficiente pra entender de onde vem tanta buniteza e tanto desdém 
isso certamente não é obra da bahia

20140310

UM CONTO NêLLA

a sua boca regente entre tímpanos e surdos
ostenta ritmica melodia leve
meu pensamentos para dentro dela
onde há sua língua o que é
e não há como não delirar pensando o que fazer com ela
portanto essa parte releve
olhe somente o que for breve
não se começa uma peça olhando o fim
não sei se é vesguice ou charme ou lêrdesa 
pode até ser influência étnica japonesa
minha confusão é muda
mas não muda sua ilha
nem sua piscina azul
nem  sua língua 
pois não sei se é beleza
nem menos se põe mesa
mas até calada
penso a minha agarrada nela
tão enroscadas quanto molhadas
nem de pé nem de ouvido
de fones
haja o o que houver
milhares de bocas em gritos ou caladas
é música para dois
sem complexidade diminuta ou dissonante
o bom e velho in - out - feijão com arroz
é documento idôneo de fácil comprovação
nunca te dei um beijo de graça
nem nunca cobrei um milhão
mas sou sua canção interminada
que dorme esperando sua boca abrir
para que possa ser cantada

20140217

tudo a revelia do que
queria eu um dia
dormi protozoário
acordei poesia

20140128

Das belezas geniais aos males inocentes

clara como a luz do dia
e nem é tão clara a pele como claro o nome
na clarividência  se escondem bobagens exotéricas
no seu corpo se vêem magias simétricas
no vácuo do espaço claridade e certeza somem
em todo traçado milhares de mundo via
hoje o traçado é uma reta ou uma curva
e o menino virou homem

20140123

O Futuro

a cor mais bonita é bem cedo
disse o poeta
vassouras para cima não varrem o chão
porto seguro não habita o homem
o sol há de brilhar todo dia
por enquanto chove
e aonde quer que seja a cada minuto um criatura morre 


Porto Seguro - BA  03/01/14

Caminha

atravessando veias abertas
bombeando
estacionando em aorta
se espalhando por artérias
caminhando e amando
filtrados pela estrada
eis que músculo
carne e pele agora mais velhos relaxam
são várias paradas cardíacas
nosso peito bate mas não paramos
o amor não para nunca
muito menos acaba

Poema do Esquecimento

com trinta anos pensei tanto em você
que de comer e dormir acabei por esquecer

nunca esqueci de beber

de sede eu não morro

mas de você ainda devo morrer

20140116

rosa no cabelo
nem a flor
nem o choque
no belo horizonte
o mais belo toque

20140112

Gerais

inconfidências pretas
azuis e amareladas
ouro
prata
esmeralda
sejam escritas ou faladas
somos loucos 
vagando pela terra
e gerais amamos minas
pois minas só não amam
os mocos

20140110

Solar

nem sombra de dúvidas abate o sol que seca o rio
em pleno janeiro
e eu esturricado e beradeiro
volto para a serra
verde
planta 
pedra
o que eu quero já sei
falta você

20140107

Cozinha Vermelha ou Azul

não sou massa pro macarrão
eu sou a pimenta
ou me bota de pouco
ou ninguém agüenta
nem mesmo na pressão
não sou massa pro feijão
comigo cozinheiro não inventa
não sou massa pra manipulação

20131227

Um Canto para a Sereia

sua verdadeira tu
mil homens levariam mil dias para desvendar
sua beleza óbvia não é apenas um complemento ao todo
mas de partida é o canto das sereias que emana do seu ser
é o que mete medo aos viajantes e lhes da coragem
mas eu herói de epopéias tortas assumo a empreitada
eu herói de epopéias outras quero desvendar tais mistérios
no pó da estrada agarrado a mares e corações
eu o anti herói um zumbi sem quilombos um coqueiro sem palmares
quero em vinte dias o inimaginável
desvendar essa beleza completa por completo
o viajante amarrado ao mastro da embarcação
observando a musa e seu canto
desafiando seu próprio coração

oficinadepoemas.blogspot.com.br

20131213

Porto

que o seu rosto lindo de minha mente não saia
o azul dos teus olhos ana não saia de mim
como do mar a praia

não saia de mim como do rio a margem
seja terra ana e eu água 
não se misture mas abrace
seja cataclismo teu corpo me margeando
a mim juntado como uma marca
como porto e navio se depreende
mas nunca se aparta


Russas 13/10/2013

20131121

Gosto

o gosto dos meus lábios
provado e tragado
hora fogueira ascesa
hora fósforo riscado

20131031

Precisa-se de Ocupação

quero alguém que ocupe este coração
tire ele desse marasmo voado
leve-o pra passear na praça
não pode ser careta
ele é movido a pinga
pinto ele de qualquer tinta
meu coração sem catraca

20130902

Quo

vivo num lugar
que eu mesmo não quis
tudo de bom foi feito no alem
e tudo ruim
adivinha
foi eu que fiz
e mais ninguém

20130818

Língua

das orgias em sânscrito
ao romance tórrido em mandarim
que traí com o russo

mas após a esbórnia no latim
me dediquei finalmente ao português
saudade

20130813

um só caminho
duas caminhadas
nunca é o mesmo passo
nem a mesma chegada